Quando falo com apostadores em Portugal – tanto principiantes como experientes – há uma lacuna de informação que me surpreende sempre: a maioria não tem uma ideia clara da dimensão real do mercado em que participa. Sabem que há apostas, sabem que há bookmakers, sabem que é legal. Mas não sabem que o volume de apostas desportivas em Portugal em 2024 atingiu 2.053,2 milhões de euros – um recorde histórico – ou que o crescimento nos últimos cinco anos transformou este mercado de forma estrutural.
Este contexto não é informação académica. É relevante para qualquer apostador porque o tamanho e a maturidade do mercado determinam a qualidade dos operadores disponíveis, a competitividade das odds, e o nível de protecção regulatória que existe. Portugal tem hoje um dos mercados de apostas online mais bem regulamentados da Europa – e os dados do SRIJ mostram porquê.
Volume de apostas: os números que definem o mercado
2024 foi o ano em que Portugal quebrou todos os recordes de volume de apostas. Os 2.053,2 milhões de euros apostados em desporto representaram um aumento de 331,6 milhões de euros face a 2023, quando o total foi de 1.721,6 milhões. Para dar escala a este crescimento: em 2020, o mercado estava em valores muito inferiores, e o acumulado dos cinco anos entre 2020 e 2024 ultrapassa 7.467,9 mil milhões de euros em volume total de apostas desportivas.
Em 2025, o crescimento continuou. Nos primeiros nove meses do ano, os apostadores portugueses colocaram cerca de 16,7 mil milhões de euros em apostas online (incluindo casino e outros jogos) – um crescimento de 10,2% face ao mesmo período de 2024. No terceiro trimestre de 2025 especificamente, o volume de apostas desportivas atingiu 504,6 milhões de euros, o valor trimestral mais elevado do ano.
O que explica este crescimento consistente? Vários factores convergem: a penetração crescente do mobile, que tornou apostar mais acessível em qualquer momento e lugar; a expansão do live betting, que criou um tipo de participação mais dinâmica; e a própria maturação do mercado regulamentado, que aumentou a confiança dos consumidores e reduziu a fuga para plataformas ilegais.
GGR e receita bruta: como o mercado gera valor
O volume de apostas diz muito sobre o comportamento dos apostadores, mas o indicador mais relevante para perceber a saúde económica do mercado é o GGR – Gross Gaming Revenue, ou receita bruta de jogo. É o dinheiro que fica nos operadores depois de pagar os ganhos aos apostadores.
Nos primeiros nove meses de 2025, o GGR total do jogo online em Portugal atingiu 869 milhões de euros. No terceiro trimestre de 2025 isoladamente, o GGR foi de 297,10 milhões de euros – um crescimento de 11,6% face ao mesmo trimestre de 2024. No primeiro trimestre de 2025, o GGR tinha sido de 284,7 milhões, com crescimento de 9,1% ano a ano. O quarto trimestre de 2024 atingiu um GGR recorde de 323 milhões de euros.
Para contextualizar estes números: a receita bruta do jogo online em Portugal cresceu 175% no período de 2020 a 2025. É um crescimento que reflecte não apenas mais apostadores mas uma profundidade de participação maior – jogadores que apostam com mais regularidade, em mais mercados, com maior valor médio por sessão.
Os impostos associados a este mercado são igualmente reveladores: no primeiro semestre de 2025, o Estado português arrecadou 163,9 milhões de euros em IEJO (Imposto Especial de Jogo Online) – um crescimento de 5,8% ano a ano. O IEJO representa 8% do volume de apostas desportivas e 25% do GGR de casino, o que significa que este sector tem uma contribuição fiscal significativa e crescente para o erário público.
Jogo online versus jogo presencial: a inversão estrutural
Um dado que pouca gente conhece e que considero fundamental para perceber onde o mercado está: nos primeiros nove meses de 2025, as receitas do jogo online em Portugal superaram as do jogo presencial – casinos físicos e bingo – em 4,3 vezes.
Esta inversão não aconteceu de forma súbita. Foi um processo gradual acelerado pelo período pandémico, que forçou apostadores habituados ao espaço físico a descobrir as plataformas online, e pela qualidade crescente das apps e plataformas digitais. Uma vez feita a transição, a maioria não voltou ao modelo presencial com a mesma frequência.
Para o apostador de rua, esta inversão tem consequências práticas: o mercado online português é hoje suficientemente grande para sustentar operadores sérios com investimento real em produto, tecnologia e protecção do utilizador. Não é um mercado pequeno e frágil onde os operadores podem dar-se ao luxo de tratar os clientes com descaso.
Os 18 operadores autorizados com 32 licenças ativas no final de Setembro de 2025 – 13 licenças para apostas desportivas, 18 para casino online, e 1 para bingo online – competem num mercado com dimensão suficiente para que a concorrência funcione. E para o apostador informado, essa concorrência traduz-se em melhores odds, mais mercados, e melhores condições de promoção.
Para uma análise mais aprofundada sobre as licenças SRIJ e o que distingue os operadores legais dos ilegais, o guia sobre casas de apostas licenciadas pelo SRIJ cobre este tema em detalhe.
Estes números do mercado têm uma implicação direta para o apostador individual: o contexto regulatório em que aposta em Portugal é sólido. O SRIJ publica dados trimestrais com detalhe considerável, o que cria uma transparência que não existe em mercados menos maduros. Um apostador informado que conhece a dimensão e a estrutura do mercado está melhor posicionado para perceber quais os operadores que merecem confiança e quais os que devem ser evitados – independentemente do que prometem na publicidade.
Há ainda uma dimensão competitiva que estes números revelam: com 18 operadores autorizados a competir num mercado de dimensão considerável, as condições de concorrência criam pressão real sobre as odds, os bónus, e a qualidade do produto. Não há espaço para operadores que ofereçam um produto claramente inferior – a migração de apostadores entre plataformas é fácil e frequente. Para quem aposta regularmente, esta dinâmica competitiva é vantajosa: as odds em Portugal são em geral competitivas face a outros mercados europeus regulamentados.
